Sobre o autor


MARCELO ANTONIO DA CUNHA é médico. Nasceu em Recife,trabalhou na Amazônia e no sertão nordestino. Há dezoito anos reside no Rio de Janeiro, onde se pós-graduou em Medicina Preventiva e Social pela Fundação Oswaldo Cruz, lecionou na Universidade Estácio de Sá e trabalhou na organização Médicos Sem Fronteiras.Atualmente coordena um Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e outras Drogas no Rio.

“NA MINHA INFÂNCIA, minha mãe ensinou-me que devíamos pedir perdão aos mendigos. Nessa época, muitos deles batiam à nossa porta. Diziam: ‘Me dê uma esmola, pelo amor de Deus.’ Quando não tínhamos o que oferecer, devíamos pedir ‘perdoe-me’. Então eles respondiam ‘amém’, abaixavam a cabeça e seguiam em frente com seus passos lentos. Trinta anos depois tive de buscar uma explicação para dar a meu filho quando ele perguntou por que eu mentia para os pedintes:eu dissera a algumas crianças,num sinal de trânsito da Barra da Tijuca, que não tinha os trocados que eles me pediam. Eu havia, ao longo do tempo, substituído o ‘perdoe-me’ de antes pelo ‘estou sem trocado’ de agora. Foi justamente por essa época, em que meus pensamentos se dividiam entre as lições de minha mãe e as de meu filho, que fui surpreendido com um convite para coordenar a Fazenda Modelo, um dos maiores abrigos para mendigos do mundo. Esta é uma tentativa de narrar meu encontro com essa fazenda e suas conseqüências; o encontro comigo mesmo e com aquele menino que, de algum modo, continua a sentir necessidade de pedir perdão.”